
Você nunca sabe se a próxima vai ser uma onda comum ou uma tsunami.
Tudo bem — tsunami vem de terremoto, não de clima. Mas a metáfora não é sobre a causa, e sim sobre o alarme e a ação: a gente não sabe qual evento vai ser grande demais, então não se prepara pra nenhum. E quando ele chega, já passou da hora.
A diferença é que, no clima, essas ondas já estão chegando. Litorais inteiros recuando mar adentro — como Atafona, no litoral do Rio de Janeiro, onde casas desabam dentro do oceano há décadas. Ciclones cada vez mais frequentes no Sul. E a enchente de maio de 2024, que tomou o centro histórico de Porto Alegre e boa parte do Rio Grande do Sul — onde a Ecofy nasceu.
Desde que comecei a estudar sustentabilidade e crise climática, venho percebendo uma atitude presente no dia a dia de praticamente todos nós: mesmo as pessoas mais conscientes sobre ecologia tendem a adiar mudanças no estilo de vida e no consumo, porque não sentem diretamente os efeitos das mudanças climáticas agora.
Em meio às leituras, encontrei esse comportamento descrito com precisão em A Política da Mudança Climática (2009), de Anthony Giddens — o chamado Paradoxo de Giddens. Como os perigos do aquecimento global são invisíveis ou de impacto não imediato, a ação coletiva não se consolida; mas, quando os efeitos da degradação ambiental se tornarem palpáveis, pode ser tarde demais para qualquer correção (p. 20).
Giddens colocava em palavras o que eu já vinha observando havia tempos — em cidades pequenas e em capitais, nos negócios e na academia: a população se preocupa com o meio ambiente e com as crises climáticas, mas os resultados ainda parecem distantes demais para que a preocupação vire ação.
Volto a Porto Alegre, minha cidade natal, não por acaso. Estudos robustos associam a enchente de 2024 — a maior da história da cidade, que superou a de 1941 — ao agravamento provocado pelo aquecimento global. Dois anos depois, a capital e todo o Rio Grande do Sul seguem praticamente inertes, sem políticas ou iniciativas à altura do que viveram.
A cada dia surgem mais evidências de que nos aproximamos de um ponto de não retorno: impactos sobre fauna e flora, agricultura, correntes marítimas, o degelo dos polos. Ainda assim, esses dados não mudam a forma como concebemos políticas públicas nem como gerimos a economia.
O que falta para olharmos para o futuro com a mesma atenção que damos ao presente? E qual evento — qual onda — será necessário para abrir os olhos da população diante do problema que já estamos enfrentando?